-Que cidade é esta que chamamos carinhosamente de ternura?
A ressonância real da cidade de Tatuí através da viva voz de seu povo.Um espaço de influências e formação,um centro de referências e valores.Um arquivo disponível à pesquisa e estudo
Em 2009 Cristina Siqueira pretende retomar o Projeto Livro de Rua e quer transformar a cidade,o país em um grande livro desencadernado e espalhado pelos espaços públicos. Motivada pela adesão de escolas,empresas, instituições culturais e amantes da literatura .Cristina Siqueira agradece a sua adesão a esta causa em favor da leitura do povo. O Livro de Rua é uma obra inédita da escritora Cristina Siqueira, que reúne uma série de 20 cartões com poemas de sua autoria, escritos pelos muros e fachadas da cidade de Tatuí no ano de 1997. Este projeto é um sinal evidente de que a alma e a força do povo é riqueza que governo algum consegue tirar, ele nos lembra uma delicadeza que se perdeu. O ponto de partida para esse projeto é " com pouco pode se fazer muito" e preciso de pessoas investindo juntas, buscando o bem comum para que possamos concretizar esta empreitada poética. Patrocínios, comentários, adesões, caminhos, visibilidade na midia municipal, nacional e internacional são o apoio de que necessitamos. Acesse também www.tatuicidadeternura.blogspot.com www.cristinasiqueira.blogspot.com www.casadecor-cristinasiqueira.blogspot. com www.prisma-cristinasiqueira.blogspot.com www.euamotrancoso.blogspot.com www.olivrosagradodasacerdotisa.blogspot. com
Para o jornalista da Folha de São Paulo Gilberto Dimenstein,convidado a fazer a abertura do 3°Congresso de Educação de Tatuí,a cidade de Tatuí é referência emliteratura/educação pelo valor do Projeto Livro de Rua aqui realizado “a única cidade do país edo mundo a ter poesia estampada em suas ruas. “ Dimenstein sabe desta minha ambição ,essa coisa quase impossível de querer transformar a cidade em um “grande livro desencadernado e espalhado pelos espaços públicosa céu aberto.”,palavras textuais da Prof.Dra da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da USP de Ribeirão Preto Lucília Maria Sousa Romão.
Na época em que o Livro de Rua aconteceu em TatuíDimenstein publicou em sua coluna da Folha de São Paulo: ”Existe um extraordinário projeto comunitário,usando a língua portuguesa,realizado em Tatuí,interior do Estado de São Paulo.Indo contra as pragas das pichações Cristina Siqueira com a parceria de um artista plástico,inundou os muros da cidade com poesia.Não apenas ninguém teve coragem de rabiscá-los como professores passeiam com os alunos para estimulá-los a ler ao ar livre.”
Movidas pelas palavras do jornalista num auditório com mais de 500 pessoas ligadasá educação inúmeras pessoas me procuraram para reportar o relevo dado ao Livro de Rua por conceituado e prestigiado visitante .Este fato ,para mim profundamente significativo peloreconhecimento crítico além das fronteiras da cidade me tocou como um merecido acerto do destino que se multiplica a cada cumprimento amigo e se efetiva ao saber do empenho publicamente assumido pelo Prefeito Luís Gonzaga Vieira de Camargo de impulsionar a realização do projeto Livro de Rua em Tatuí.Desta claridade,destes muros convertidos em linguagem quero tornar público um email que recebi da Professora Rosi Elena Baltazar da Escola Estadual Professor Fernando Guedes de Moraes por ocasião do último aniversário da cidade.
Meu nome é Rosí Elena Balthazar, sou professora na E.E. Prof. º Fernando Guedes de Moraes e quando cheguei em Tatuí, em 2002 e me encontrei com uma de suas poesias (na Rodoviária) achei lindíssima, adorei a poesia e admirei a iniciativa , mas não sabia das outras e nem de você. Conheci a obra e a poetisa através dos muros. E a cada encontro com um de seus muros tinha a impressão que se lesse a poesia em voz alta, a qualquer momento, se abriria uma porta encantada, para mim o muro era o começo e não o fim... se tornaram parte de mim. Em 2007 fiz um projeto na escola com o “Livro de Rua”, os alunos do 1º Ensino Médio conheceram o livro, a escritora e as poesias... Uma a uma, das que restavam. Foi um sucesso! Os alunos pesquisaram, filmaram, fizeram reproduções... Enfim só faltou conhecer você pessoalmente. Agora para fechar com chave de ouro, a escola resolveu homenagear você como “filha ilustre de Tatuí”, no desfile de 11 de agosto.E se possível gostaríamos que você nos informasse respondendo as nossas perguntas sobre o Projeto Livro de Rua.
Oi Rosi,
Acabei de ler o seu email que muito me emocionou.O trabalho que foi realizado na Escola Fernando Guedes de Morais em 2007 foi maravilhoso.
O que mais me gratifica é sentir o resultado do Projeto Livro de Rua anos depois ,através de leitores sensíveis como você e seus alunos que tocados pela poesia se colocam no lugar do escritor e estão cobrando a continuidade deste projeto que tanto fez brilhar a escrita,a cultura literária e a cidade de Tatuí.
Este trabalho que esta sendo produzido em minha homenagem como "filha ilustre de Tatuí" no desfile de Xl de agosto em muito me dignifica e valoriza tudo que tenho entregue à cidade ao longo de mais de duas décadas.
Como, quando e com que objetivo surgiu a idéia do Livro de Rua e das poesias nos muros.?
Em meados da década de 90 eu entendi de transformar a minha casa em um ponto de cultura.Sempre minha vida foi dedicada a educação, às artes e à literatura.Iniciei minha carreira de professora lecionando nas escolas rurais do vizinho município de Guarei.Morei durante 17 anos na cidade de Belo Horizonte desenvolvendo inúmeros trabalhos nas áreas cultural e pedagógica.Quando retornei à Tatuí,cidade que me viu crescer e onde residiam meus pais e meus filhos senti que a identidade da cidade era cultural a começar pelo escritor tatuiano Paulo Setúbal membro da Academia Brasileira de Letras e pelo plantel musical do Conservatório Dramático e Musical Dr. Carlos de Campos de Tatuí.Cultura não é algo que encontramos para comprar em qualquer esquina.Aos poucos fui criando movimentos culturais na minha casa,seguido depois por outros artistas que criaram seus próprios ateliês .Nessa ocasiâo com apoio do Luís Gonzaga Rocha Leite do Sítio do Carroção convidei o artista Cláudio Tozzi,reconhecido internacionalmente a montar uma exposição em minha casa.Quando êle aceitou o convite eu fiquei super feliz e ao mesmo tempo preocupada.-Como eu iria receber tão ilustre e famoso convidado em minha casa tão simples,sem segurança alguma e eu sem suporte financeiro para bancar os convites,divulgação e tudo o mais.Simplificando a história eu fechei a rua e fiz à mão com a minha letrinha de professora o primeiro poema no muro ao lado da minha casa gentilmente cedido pelo vizinho,com o objetivo de receber com poesia o convidado.Mesas e cadeiras na calçada,um pequeno coquetel e os amigos que vieram prestigiar o espaço trouxeram brilho ,calor e animação ao evento.O pintor famoso se sentiu em casa e eu em júbilo pelo sucesso da exposição.Deste primeiro poema de nome Liberdade me ocorreu criar um livro pelas ruas de Tatuí.Entusiamada por um amigo formatei o Projeto Livro de Rua e o encaminhei ao Ministério da Cultura.Após a aprovação do projeto pela Lei Rouanet quase que na sequência surgiu um patrocinador .
2-A Via Engenharia S/A sustentou financeiramente o projeto sob o incentivo do Ministério da Cultura, segundo o seu livro. Sendo assim, quem você colocaria como responsável pela preservação desse trabalho?
Todo e qualquer projeto cultural realizado em um cidade passa a ser patrimônio daquela cidade e deverá ser preservado pelas autoridades do município ou seja Prefeitura e Secretaria de Cultura.Veja você,na Praça do Museu Paulo Setúbal outro dia veio ao chão o busto de Getúlio Vargas, na seqüência e prontamente a prefeitura tomou providências para que a estátua voltasse ao seu pedestal.No caso do Livro de Rua apesar do trabalho junto às escolas ser largamente noticiado e reiteradas vezes eu ter buscado apoio para restaurá-lo e continuar me vi falando sózinha.Quando idealizei o projeto previ que a arte nos muros poderia ser efêmera por inúmeras razões daí entendi de revelá-la no Livro Por Trás dos Muros e em cartões postais.Hoje este projeto faz parte do Patrimônio subjetivo da cidade. Acredito que agora com o Prefeito Gonzaga que é tatuiano e envolvido com as causas edificantes para a cidade, e com o suporte das Secretarias de Cultura e Educação que hoje são realidade será possível retomar o projeto.Fica assim registrado o meu empenho e intenção de continuar com o Projeto Livro de Rua. Na verdade sempre que convidada eu levo esta história do Livro de Ruaem palestras nas escolas,empresas.Enfim,12 anos se passaram e o Livro de Rua continua vivo na memória do povo e rendendo divisas culturais como referência pedagógica.
A trajetória deste projeto é bastante abrangente,o Livro de Rua em seus cartões postais é material de apoio didático na forma de software para a alfabetização de jovens, adultos
e idosos do Projeto Luz e Letras da rede pública estadual,da Secretaria de Estado da Educação do Paraná-através do seu departamento de Educação de jovens e adultos.
Poemas de minha autoria são apresentados em livros didáticos da Editora Scipione,distribuídos em escolas públicas do Brasil.
Se um dia você visitar a Universidade de Coimbra em Portugal lá você encontrará um exemplar autografado do Livro de Rua.Certa vez ,estando em Sedona nos Estados Unidos em um encontro promovido pela Unesco em favor da Paz eu presenteei um dos dirigentes com um livro e ele ao ler o poema “Meus nervos estão esticados/como cordas de violino/ de tanto andar na corda bamba/com a corda no pescoço”ficou visivelmente emocionado e queria entender como um poema de teor sofrido pôde ser ilustrado com uma bailarina leve e graciosa se equilibrando num fio infinito projetado no espaço,criação de Jaime Pinheiro.Pois é ,no Brasil é assim ,não é?
2-Quais eram suas expectativas com relação a esse trabalho?
Dar poesia ao povo é um princípio de ajuda coletiva,é fornecer educação nas ruas em todos os momentos.A aprendizagem se faz naturalmente em um processo espontâneo.Cultura de boa qualidade e acessível a todos é a minha oferta para uma efetiva mudança social e de sensibilização através da poesia.
Eu acredito que a poesia nas ruas humaniza as pessoas .Atua como um antídoto a este mundo que a cada vez mais esta se tornando frio,sem valores éticos,sem referências estéticas. Desperta o prazer da leitura.É um projeto não só lírico e belo mas naturalmente pedagógico.A minha expectativa maior era realmente transformar a cidade em um livro.Sem sombra de dúvidas é evidente que o Projeto Livro de Rua atrairia turismo para Tatuí principalmente por ter seu produto final em cartões postais.
3-O seu “Livro de Rua” é um diferencial da cidade, Tatuí antes e depois das poesias nos muros. Há possibilidade de repetir o projeto? Por quê?
Acredito que este projeto além de inédito é super atual e sinto a necessidade de reeditá-lo em um novo formato e usando das suas palavras "E a cada encontro com um de seus muros tinha a impressão que se lesse a poesia em voz alta, a qualquer momento, se abriria uma porta encantada, para mim o muro era o começo e não o fim... se tornara parte de mim." Quem sabe agora é chegado o momento.Outro dia tocada pelas bordadeiras na Praça da Matriz escrevi um poema que fala de amor a esta praça que na sua mudez de praça me viu brincar,crescer,namorar e voltar para lhe dedicar um poema.Para mim Tatuí é ternura,música e este reconhecimento que recebo das pessoas.
No ano de 2004 consegui com o apoio de empresários,comerciantes,profissionais liberais ,amigos , leitorese entrevistados de Prisma,página que assino no Jornal O
Progresso de Tatuí o suporte financeiro para editar o Livro Prisma.Graças a Deus Tatuí sempre me prestigia na produção dos meus trabalhos.
Acredito que pela união das forças políticas e empresariais da cidade conseguirei subsídios de patrocínio para a produção da reedição deste projeto já aprovado pela Lei Rouanet.Quero trazer para a realidade a força da inspiração poética.E nós podemos.
Agradeço ainiciativa da Professora Maria Aparecida,diretora da Escola Estadual
Fernando Guedes de Moraes em me prestar esta homenagem e através de você Rosi
agradeço e homenageio a todos os professores que amam a seus alunos e se dedicam em fazer da educaçãoa base para um país mais evoluído.
Cristina,
Sentimos muito quando vimos desaparecer dos muros as suas poesias... Afinal é sempre bom chegar ou partir com poesias, ficamos menos solitários.
Foto do Arquivo de Erasmo Peixoto-gentileza do restaurador Tony Guedes
Saudade da Infância
Que saudade do pão quentinho
que não era da esquina
A loja do Sêo Pretinho
ao lado a farmácia Avalone
café com leite e novelas que vinham
com as ondas do rádio Minha mãe bordava toalhas de mesa e costurava colchas de retalho.
O telefone tinha dois números
e os taxis se chamavam carros de aluguel
papai usava chapéu
Na esquina tinha um bar onde os homens tomavam café
Vestia minhas bonecas com tecidos de meus sonhos
Colecionava papéis.
A cidade não era calçada
O jardim tinha um coreto e casais de namorados
Meu vestido tinha um laço,babados e muitas fitas Tomires do Sêo Bodinho fazia meus bolos de festa carrocinha de cachorro sapatos da Casa Armênia a cidade era minha,a casa dos Lanza o bangalo dos Azevedos A Igreja da Matriz a procissão e seu enredo lança -perfume Rodouro bisnagas com sangue do diabo bailinhos e matinês Que tempo bom!
Esta cidade era minha e hoje é só passado Não sei se naquele tempo eu é que via luz ou todos eram iluminados?
Que bom que você existe. Que bom que faz o registro, a cartografia afetiva dos lugares cotidianos da nossa Tatuí. Que bom que traz a memória coletiva da cidade, que faz com que aflore com todos os seus cheiros, sabores e saberes... Emocionei-me muito. Acredito que muita gente também... Em cada palavra, em cada afirmação sua, pode ter a certeza, milhares de pessoas, que estão aí ou não, encontraram sua identidade, seu verdadeiro ser, forjado e alimentado no viver cotidiano da nossa cidade. Que delícia encontrar referência da minha tia Tomires e do tio Bodinho, brincalhão em essência, que me parava no caminho à piscina do XI de agosto e me dizia que o clube estaria fechado, pois era aniversário da água. Tia Tomires com seus deliciosos e inigualáveis fios de ovos que eu e meus primos adorávamos e não hesitávamos um minuto quando nossos pais diziam que iriam para uma visita à casa dela. Mesmo sabendo que, na sala de visitas, as conversas seriam de adultos e, para nós crianças, intermináveis, o sacrifício de esperar tia Tomires dizer “querem um docinho?” valia a pena. Você também falou da Tipografia Unidos. Cresci dando uma passadinha por lá depois da escola. Sempre meu pai, o Zeca Rampim, presenteava a mim e a quem estivesse comigo com bloquinhos feitos das sobras do papel. Todos na escola queriam esses bloquinhos. Afinal, a oferta deles não era tão grande como hoje. Lembro-me do barulho das máquinas, do cheiro de papel e tinta, dos modelos de convites de casamento onde sempre imaginava meu nome no lugar da noiva. E as fotos de lembrança do meu primeiro, segundo terceiro... até o décimo aniversário! Tenho todas até hoje... Obrigada, Cristina, por me proporcionar esse mergulho na minha história, na minha identidade, em meio a tantos compromissos de trabalho... Obrigada por me fazer parar, refletir e escrever essas poucas linhas. Parabéns pelo registro desse patrimônio cultural imaterial que é a vida pulsante de Tatuí.. Parabéns, Tatuí...
Sonia Rampim Florêncio
Oi, Sônia
Profundamente sensibilizada com o seu olhar sobre o meu trabalho.Feliz com a sua participação nesta página “Prisma”, com a sua delicadeza expressa em palavras. A cidade que nossa memória guarda é o que nos une em patrimônio e afeto. Lembro-me do cheiro de tinta da Tipografia Unidos e do vai e vem operário dos senhores que compunham letrinhas. Do Sêo Bodinho, eu tenho uma história que ouvia minha mãe contar com muita graça. Eu devia ter uns três anos e ficava sentadinha na soleira do portão vendo o movimento da rua e conversando com os passantes. Nisso, apareceu Sêo Bodinho, e eu, de pronto, lhe disse: “Sêo Bodinho, não vá lá na praça, que a carrocinha está pegando cachorros”. Ao que ele respondeu, com o humor que lhe era próprio: “Mas bode eles não pegam, não! Fica sossegada, Cristina.” E todas as vezes que nos encontrávamos nas ruas, Sêo Bodinho dizia, “mas bode eles não pegam não!” A crônica “Tatuí Ternura” foi base para o despertar de sentimentos adormecidos. As manifestações de apreço se materializaram e me surpreenderam. Recebi do Tony Guedes, fotógrafo, várias fotos dessa época, do arquivo restaurado de Erasmo Peixoto. Publico hoje as telefonistas do tempo em que os telefones tinham dois números. Escrevi um poema que diz muito do espírito dessa época e confesso a você que gostaria que fosse uma das páginas do “Livro de Rua-Tatuí”, que pretendo fazer novamente.
Quem visitava Tatuí pelas décadas de 60, 70, se chamava “gente de fora” e era curiosamente estudado, passava por um inquérito. De onde veio? O que faz por aqui? Solteiro, casado, viúvo? A cidade tinha como hostess moças animadas, que se encarregavam de receber os visitantes com cordialidade e simpatia, enquanto os moços não viam com bons olhos os forasteiros. Eram comuns as brigas na saída dos bailes, e ai daquele que se atrevesse a flertar com a namorada de alguém.
Viajantes de passagem, visitantes com estada prolongada, eram estudados como personagens de revistas, na rapidez do interesse do momento. Havia o maior cochicho em torno das figuras, e me lembro bem da época dos estudantes americanos que começaram a chegar em programas de intercâmbio cultural. Era uma festa. Traziam o gosto por sanduíches, batatas fritas e o jeito americano de dançar quadrilha, tênis com meias soquete, máquina fotográfica pendurada no pescoço e aquela cara deslumbrada de turista.
Achava incrível observar as diferenças, assistia a filmes e delirava com os atores e atrizes de Hollywood, mas pertinho assim, os olhos azuis, azuis, os cabelos escovinha dos rapazes, as moças branquelas e até bonitas. Além da curiosidade, existia o bom tratamento do povo de Tatuí.
Era importante ser gentil com os visitantes estrangeiros. O jeito de receber bem era a nossa oferta de atenção e carinho, o espírito da acolhida os tornava irmãos. Irmãos de uma cidade inteira. O assunto na escola era falar dos estudantes de fora, os corações suspiravam quando eles dançavam rock. As meninas de saia godê ou pregueada, calças compridas justinhas, suéter colado no corpo. Os meninos de calças de brim caqui e gumex no cabelo.
Assim, o Bill foi hóspede na casa do Neves, e, no dia de sua partida, entreguei como souvenir a ele parte da minha coleção de garrafas em miniaturas. As festas aconteciam, e um dia, na casa de Simeãozinho Sobral, fiquei hipnotizada com a dança de uma americana de cabelos curtinhos e óculos gatinho. Virgínia, que se hospedou na casa de Clara, Fernando e Ângela Gagliardo, foi miss Tatuí. Um sonho vê-la desfilando em um carro alegórico no dia do aniversário da cidade. Pamela, hóspede da família Holtz, sempre visita o Brasil e Tatuí, e desta vez tive o prazer de a receber em casa, juntamente com seu marido e Regina Holtz.
Ser tatuiano é amar música, teatro e luteria, é ser cidadão da Capital da Música. É tocar trompete debaixo da janela do diretor, é carregar a tuba na bicicleta, contramão da São Bento. É dizer bom-dia até para poste, abrir a porta para as senhoras e idosos, é enrolar o “r” com orgulho, é rimar arraiá com casá, conversar com desconhecido, é cornetar. Ser tatuiano é frequentar o Conservatório, dizer de boca cheia que é o maior da América Latina, e que seu fio, seu véio e sua patroa lá estudaram. É saber diferenciar uma viola de arame de uma viola sinfônica. Enfim, é ter música no sangue, poderoso antígeno contra vírus de todos os tipos, dos espanhóis aos do mau humor.
Ser tatuiano é vir de mala e cuia de São Paulo, Minas, Cuiabá, Peru, Paraguai, Itapetininga e adjacências, é sujar a botina de elástico de barro vermeio, é pitar cigarro de páia, uns bons minutos para bem prepará-lo. É gostar da pinga dos Ramos, do pão-de-queijo do Café Canção, do relógio da São Martinho, do pesqueiro do Doc, do Abud do Colina, do bar da Lena, do dog do Gordo, do Paulinho, do Caipirinha e do Caipirão do Arnaldo, do enorme shopping center livre da XI, é ficar vendo a estátua do Del Fiol “tocar” na praça da Matriz, é trombar com vereador no supermercado, com o Guarda Civil na banca de jornais, com o delegado no concerto.
E a tatuiana? Ser tatuiana é usar salto alto, calça preta e apear da Honda Bizz, tirar o capacete cor-de-rosa desarrumando os cabelos, é ser educada, é ser dona de casa, professora do “Barão”, do Anglo ou do Objetivo, é ser aluna da Etec ou da Fatec, é chorar de alegria, é sorrir de nostalgia, como dizia Noel, é usar calça jeans com brocado de prata nos bolsos de trás, é pranchar o cabelo ou fazer escova sempre que possível, é fazer social no Conservatório, é dançar bolero ao som da Big-band no Coreto, é aplaudir o Jazz Combo, o Coro, os Grupos de Choro e de Percussão e achar tudo fashion. Ser tatuiana é a coisa mais linda, mais cheia de graça, menina que vem e que passa, mais que um poema num doce balanço a caminho do lar. Ser Maria sem eira nem beira, Maria somente, Maria semente de samba e de dor, é ser Maria José ou Cristina Siqueira.
Ser tatuiano é madrugar no banco da praça da Matriz e contar do sordado marvado que mandô pórva no bandido, é ler “assombrações caipiras” e acreditar nelas, é ser teen e ir no Uainá, no Clube XI, jogar no RealMatismo, é fazer festa no República, comer pastel no Tambelli, dividir por quatro uma parmeggiana no Doca’s, é fazer rabada, leitão à pururuca ou assar linguiça na calçada, é prosear com o cumpadi na soleira da porta, é contar do peixão que (não) fisgou no Pantanal, e, óbvio, evidente, encher a boca para falar do sucesso da Lyra em Serra Negra ou em Bayreuth, na Alemanha.
Enfim, ser tatuiano é só ver telejornal da região na TV TEM ou no SBT, é saber, como dizia o Gil, que “a bomba explode lá fora, aqui o que vou temer...”, é gostar da música de raiz, de seresta e da Sinfônica – que são duas, banda e orquestra! -, é ter orgulho da água pura da Sabesp, do desemprego que caiu. É saber (saravá, Vinicius) que os namorados caminham de mãos entrelaçadas, e que os maridos funcionam regularmente, porque hoje é sábado. Parabéns, Tatuí!
Vitrine de inocência das meninas de antigamente Fotógrafo Caçador-Photomelomania
Feliz aniversário Tatuí Ternura
Cristina Siqueira
A vida que te dou na verdade é o meu direitoa irrealidade,o alcance da memória que me toma o coração onde guardo tangíveis e agradáveis lembranças,um tesouro.
No paraíso sensorial da infância onde busco brigadeiros, pipocas, vestidos de domingo, brincadeira de navioe circo na farmácia de dona Adelina Avalone.Nas deliciosas tardes de visita em companhia de minha mãe à Dona Leontina Martelleto Hessel guardo um acervo de afeto.Almofadas de crochê, o tempero da comida caipira, o pequeno violino do Mateuscomo um quadro na parede da sala.A cadeira de balanço o piso de ladrilho hidráulico,tia Leontina me fazia as vontades,ovo estralado de geminha mole ,feijão com arroz com folha de louro,torresminho pururuca e doce de laranja feito no tacho.
As manhãs de domingo depois da missa das 10,a alegria no jardim da Matriz e depois a matinê dos bailinhos no Clube Recreativo.A estréia do vestido novo.Filmes e seriados,Zorro,Mulher Tigre,Os três patetas,o Gordo e o Magro.As novidades na casa de Elias Sallum onde brincava com Eliana e Eliazinho.As festas juninas,buscapé,fogos de artifício,pipoca,amendoim ,bolo de fubá.
A primeira televisão em preto e branco, os disquinhosde história em compactos coloridos.A raiva da carruagem ter virado abóbora na história da Cinderela.Almoço e jantar no Hotel Del Fiol onde a cidade pensante acontecia.Vovó Cesira Del Fiol,minha madrinha de crisma ,dela herdei o quadro iluminado de Santa Terezinha do menino Jesus.A cozinha de tia Yolanda piscava ,os bifes na chapa do “fogãozão” a lenha que Rita e Benedita preparavam para mim.O Vadô e o Marinho serviam o restaurante e faziam mágica entreo serviço da sopa ,saladas e sobremesas.Balas tofe no balcão da entrada e a geladeira que hoje é relíquia do Sítio Santa Rosa.A mesinha de xadrez onde meu pai jogava com Dr Aniz Boneder,Dr Almiro Minhoto,Sêo Salustiano,Sêo Acacio Manna,Tio Oswaldo Del Fiol.A alegria da Noca que conhecia pessoas importantes,a elegância de Modesta e Nádia Sallum.Sêo Bimbo e o Professor Sílvio Azevedo,Sêo Chiquinho Del Fiol.Armando Petinelli e Maria Tricta,Pedro e Lúcia Gagliardo,Professor Paulo Ribeiro e professora Lieneti,Dr Simeão Sobral e Professora Rosa.A fazenda de Toto Meirelles,o Rotary Club,dr Faria e Dona Zainha,falo de pessoas distintas que honram a história desta cidade. O Vicentinho do PROGRESSO de TATUÍ, Hélio Reali e Milton Stape dono dos três cinemas São Martinho, Santa Helenae São José.Balas de café e de coco,sessão das seis do domingo.
Aí neste lugar escondido e que não é só meu, tenho certeza, habito o imaginário passado, fugaz.
Os casais de namoradossentados nos bancos frios da Praça da Matriz,as mãos entrelaçadas.O coretode mármore cor de rosa.As festas de santo,quermesses,gincanas,procissões,desfiles.
A banda furiosa, o foguetórioquando a égua vermelha ganhava a honra do XI de Agosto nos campeonatos de futebol.Bares e Cafés e mais a Sorveteria da Leda, a Farmácia do Sêo Juquinha.
Tatuí, uma cidade festeira,sempre foi assim e à frente de tudo o animado e diligente Nilzon Vanni que fazia a cidade acontecer.As fotos na vitrine do Menezes e as fotos do Paulo Dragão ,depois as fotos do Módena.
Os doces da Eugênia Caresia,os bolos de festa da Tomires do Sêo Bodinho.Balas de alfenis da Cida do Zézito.Fios de ovos e doces ABC.
As modistas, costureiras com mãos de fadas, as irmãs Benetti, Heleninha Foltran, Dona Edi,os bordados de Dona Lígia Del Fiol , as roupinhas de bebê de Dona Tereza Vanni,os tecidos e enxovais da Flor Geni.As primeiras prestações de roupa pronta na Celina.Os pregões do Jonas na Casa dos Presentes.A loja do Sêo Pretinho onde comprei o primeiro presente do dia das mães com as moedas do cofrinho.A Tatuí Elegante onde comprei uma malha de tricô em decote V, com um escudo bordado com o dinheiro da mesada.
Rua Prudente de Morais, morei em frente à Telefônica e a papelaria de Dona Irma Minghini Vieira onde abastecia minha coleção de papéis de seda coloridos.No quarteirão de baixo num casarão enorme moravam Sêo Roque Negrãoe Dona Prima. Sêo Roque era dentista, um homem extremamente bom, uma doçura de pessoa, excelente profissional. Dentinhos de leite iam para o telhado esperando o coelhinho os levar e os molares eram extraídos comboticão .O zumbido do motor era um triller de terror.Nesta casa anos depois residiram Erasmo Peixoto
e Maria Negrão,ali criaram os filhos José Erasmo,José Marcelo,José Guilherme e Cássia..Nos tornamos amigas, eu adolescente e Maria uma mulher prendada, de bom gosto,conhecia tudo da arte de receber,suas receitas eram testadas eela sabia todas as novidades e lançamentos que aconteciam em São Paulo.Até um tempinho atrás toda vez que nos encontrávamos ela puxava pela lembrança das festas de aniversário,noivado,casamento e realçavaas delícias que minha avó Lúcia preparava na cozinha.
Nessa rua que por encanto era minha morei pela segunda vez num casarão enorme em anexo ao Armazém da esquina a“Casa Barino”,um comércio de Secos e Molhados que pertencia a minha família.Vizinha de frente de Edgar Vieira e Deise pais de João Augusto,Márcio e Mariza e do Professor Acácio Vieira de Camargo e Dona Sílvia pais do Acassil e da Lindinha.No meio do quarteirão Gilton e Leila criavam os filhos Gilton,Cassiano,Emílio,e Nina.A Tipografia Unidos ,o Açougue do Mário Pedroso,o Tatuí Clube.
E os carnavais com Lança Perfume Rodouro,confetis e serpentinas,carros alegóricos,Hélio Portela,Zé Galvão,Maurício Medeiros.Bisnagas de sangue do diabo,clubes animados Tatuiense e Recreativo,Tatuí Clube,Sociedade Italiana,Princesa Isabel.As ruas movimentadas,Cordão dos Bichos,fantasias,e mulheres bonitas faziam a fama de um dos melhores carnavais do interior do Estado de São Paulo.Os salões de cabeleireiras da Esmeralda,da Rosinha,Da Marlene.Depois da dona Nair ,da Cacilda todos com agendas lotadas.
Tempo que a insegurança não me afligia, na verdade existia o inexistente homem do saco que pegavacriancinhas e o olhar tranqüilizador de minha avó que dizia estou aqui.
Tombos de bicicleta e joelhos ralados as amigas Angela Gagliardo,Stela Barros ,Aninha Sartorato, Eliana Stape,Cecília Bassoi,Magali Jacó Hessel,AmáliaPoles.Ruas de terra batida ,depois lajotas antes do asfalto.Iluminação precária em postes pretos super gelados no inverno. Blackout constante da Light. Carroças, charretes, cavalose um volume pequeno de carros.
A minha Calói feminina que depois troquei por uma rádio vitrola Zilomag onde ouviaóperas sentada no colo de meu avô Cateno Di Si.Ele chorava com saudade da Itália.Eu aprendia trechos das árias e histórias da sua terra distante.
Tatuí, em suas ruas centrais nenhum vazio é possível, a vida de sua gente que me povoa a lembrança é uma construção ousada e engenhosa, estou há horasremexendo o passado,
encontrandoora aqui, ora ali,fragmentos de cenas animadas em gerações sobrepostas.
Espectadora do seu crescimento, de aniversário em aniversário, entre as aparências e a realidade quanta história se entrelaça. O tecido humano de que é feita a cidade. É desta Tatuí que falo esta cidade feita no espírito de grandes homens e mulheres que para o bem de nosso futuro merecem ser sempre lembrados. Minha pequena cidadela familiar onde vivo, sobrevivo e onde se desenrolam as batalhas mínimasem que as idéiasse colocam em palavras que insistem nesta declaração de amor.
Aqui, nesta Tatuí intocada e minha sonho com uma cidade escritacomo intentei um dia com
o Projeto Livro de Rua vivo na memória do povo,vivo nos cartões postais que voam pelo mundo.Minha fantasia de poeta é a vida que te dou terra amada, é o que me leva a fazer brilhar nas páginas deste Jornal O Progresso de Tatuí semana após semana o perfil de sua gente para que todos lhe reconheçam o brilho.
E é com este brilho, neste Prisma que assino com as velas da esperança que lhe desejo Feliz Aniversário Tatuí Ternura.
Queridos leitores, esta crônica de aniversário será postada no Blog
Sábado pela manhã, acordei porosa, permeável as emoções, sentimental, perambulei por dias divertidos lá da década de 80, quando o destino me trouxe o convívio com Otávio e Maria Elisa. Otávio, filho único de Bimbo com dona Julieta, que eu conheci na infância. Lembrava-me de Otávio com seu Karman Ghia amarelo. Conhecia dona Elisa, mãe de Maria Elisa, e com eles me sentia à vontade, acolhida, desfrutando da intimidade da família alegre, a mesa farta nas prendas de Maria Elisa, as visitas ao bangalô de Arnaldo e Ana Isabel.
Retornava a Tatuí após ter morado em Belo Horizonte. A cidade pequena e eu grande demais, querendo ganhar o mundo. Bastava um namorado, uma boa história e alguns bons amigos. Foi uma época de fantasia, sorrindo para a vida, queria ser feliz, viajar e não ter problemas. Sítio nos finais de semana, muita onda valendo até o show business nacional, com as mulatas do Sargentelli e a companhia de Abelardo Figueiredo. Existia um cadillac preto que eu pensava que poderia ser cor-de-rosa. Esta era a cor dos meus sonhos. A gente podia incendiar a vida, nós sabíamos viver. Aperfeiçoo o momento na lembrança desta amizade tão próxima e sincera. Neste estado de espírito, me dirijo à Praça da Matriz, onde acontecerá o descerramento da estátua de Bimbo Azevedo. A vida se encarrega de tudo, o tempo tem olhos de retrovisor e vai buscar na memória fatos e pessoas que nos dignificam.
Tatuí, Capital da Música, e insisto, Cidade Ternura, pela qualidade de sua gente. Sento-me ao lado do professor Paulo Ribeiro, que, baixinho, vai proseando em versos, poemas inteiros. Sua presença ao meu lado é viva voz de ternura. Encontro pessoas queridas, Celso Módena chega para agradecer o relato de nosso encontro na esquina, que rendeu uma crônica, Carlota Franco envolvida com projetos artísticos buscando a chancela do Banco Real, revejo queridos e queridas em festa. Na moldura o Café Canção, onde morou Bimbo Azevedo e que eu tive o prazer de repaginar, produzindo com o Marco e a Carmen Sílvia a foto- história nas paredes, compondo com partituras musicais. Maestro Pereira rege a orquestra, executando músicas de Bimbo. O coral Municipal “José dos Santos! apresenta sua homenagem.
Linda a manhã na praça, segue a cerimônia na fala do prefeito Gonzaga, que tem o mérito de enaltecer os valores da terra, sendo ele um valoroso “pé vermeio”, sendo ele um tatuiano aguerrido, que luta pelas causas da cidade.
E fala Jorge Rizek, e fala o escultor Camargo, e Maria Elisa, em nome da família, agradece a homenagem e a presença dos amigos.
E depois, o suco de pitanga com laranja servido pela Evelize, os alôs amigos de Raquel e Guto, Araci Cavalcanti, Cristininha Corradi, Tavico Azevedo, Henriette, Giovanni Arruda - idealizador do projeto das esculturas -, Arnaldo, Ana Isabel e toda a família Macedo Azevedo. Antes de sair da praça, cochichei com Sílvio de Abreu: “Voltem sempre. A cidade os recebe com música e alegria.” Esta é a ternura com que servimos a nossa mesa, a acolhida simpática aos visitantes.
Neste fim-de-semana fiz uma boa peregrinação cultural pela cidade, que terminou na deliciosa feijoada servida no República Botequim, convidada de Luiz Duarte.
Mesmo no sossego da sexta-feira pela manhã, estou atenta a tudo que acontece à volta. A cada minuto me surpreendo com os amigos que por aqui vão passando e deixando um bom trecho da história. Tatuí se faz de gente e das folhagens copadas das árvores da Praça da Matriz, onde meus olhos se embebem em verde. O gosto bom do café quentinho com espuma, a leitura do jornal do dia. O tom é de calma na cidade tranquila. Aprecio a conversa em câmera lenta como se não houvesse amanhã, José Erasmo compartilha o jornal “Estadão” comigo, e, no fórum dos leitores, está lá uma nota que ele havia enviado à redação do jornal. Zé Erasmo é assíduo participante do fórum do “Estadão” e tomo a liberdade de transcrever sua opinião para esta página pelo teor do acento crítico da nota:
“O Brasil não pode mais suportar essa máquina de produzir privilégios e privilegiados. Com a profunda cegueira do egoísmo, esse clientelismo político e o nepotismo estão fermentando neste país os ressentimentos que destilam o ódio. Até quando nós, os comuns, temos de trabalhar para manter os requintes desses mandarins que se encarapitam nos ouros de nossas instituições? É preciso que o bisturi saneador da livre crítica e da imprensa funcione todos os dias, em todas as edições, semana por semana, como vem sendo feito”. Disse bem, meu amigo, porta-voz da indignação de nós, santo povo brasileiro.
João Augusto passa pelo café para um dedo de prosa, peço notícias da Miriam. Falamos da vida, a palavra é desacelerar, como fazer ou como não fazer para trazer mais pausa à vida. João tem o semblante preocupado, reflete sobre o momento, fala da força de sua mulher, é amor o que ele sente. Como é lindo ver a transparência do amor de um homem pela sua mulher.
Fran comenta os “causos” que irão para o jornal nas próximas semanas. Gosto de suas crônicas, mas ouvi-lo falar com seu sotaque tatuiano é matéria para um videoclip.
James Miranda se prepara para ir ao Rio de Janeiro com a família, onde irá disputar a maratona do Rio. Lorenza é sua mais fiel e ardorosa fã.
Enquanto isso, meu caderninho de capa azul, brochura simples, registra coisas singelas, corriqueiras, que me emocionam e trazem um colorido à vida. Luiz Duarte me convida para o almoço e de lá me conduz para o salão onde me cumula de atenção. Tarde de delícias começa com o capuccino, receita especial que Cláudia preparou para o Luiz servir aos clientes. Com canela, aromatizado com licor, este é o segredo, tudo fica quentinho e muito bom. Massagem em madeixas que fazem barulhinho de tão limpinhas, sedosas, perfumadas, e o corte que nas mãos do artista fica leve, vaporoso, moderno. Unhas framboesa, no tom da paixão que me toca ouvindo música francesa e uns hits antigos de doer o coração. Paixão é este fazer com graça, rindo e com entusiasmo por nada e por tudo, bobagenzinhas da vida. Prazer de poder me embonitar como se estivesse em uma maison francesa. Estou em Tatuí e, como diz meu querido Carletti, as coisas acontecem em Tatuí e Barcelona. Gosto dos dois endereços, é bom estar por aqui e em Barcelona. E daí a lembrança vai para a querida amiga Eliana Arruda , tatuiana que vive nas terras catalãs.
Adoro mel e ouço Carla Bruni, e ouvindo Carla Bruni penso em todos os beijos que ainda irei ganhar... Adoro mel. Os olhos apertadinhos, a cabeça molinha, ouço Carla Bruni, choveu um pouco. Um risco de luz amarela esfria o céu, a noite desce, é a boca da noite na hora da Ave Maria. A minissaia preta, o cachecol de cashemira em babados, feminina, a pelerine dos invernos em caminhos desdobrados. Pernas em meias de seda preta, delícia do tempo frio. As meias finas de seda. O broche pontua delicado. O batom e o esmalte, J’adore vaporizado.
Happy hour na Contos e Encontros, chego atrasadinha para assistir ao quarteto Abayomi, formado pelos professores de violão Adriano Paes, Patrícia Nogueira, Juliana Oliveira e Josiane Gonçalves . “Abayomi” – palavra que em tupi-guarani significa “encontro feliz”. Lindo! A delicadeza do repertório, a brasilidade comovente em notas musicais. Emocionante! Por ali, ficaria horas me agradando com boa música em um ambiente de livros e plateia silenciosa e educada. Assim parece até que estou em Paris. No Conservatório, se apresenta a Sam Jazz. Hora de escolha...
Da livraria, eu e Celinha Holtz, bem como antigamente, caminhamos até a Secretaria de Cultura, no Clube Alvorada, onde já estava acontecendo o lançamento do livro “Assombrações Caipiras”, de Ivan Camargo. Recebidas por Jorge Rizek, pudemos apreciar as obras de artistas plásticos tatuianos que concorrem ao Mapa Cultural Paulista. Salão animado, apresentações, cumprimentos, Lívia recebe os amigos que vieram celebrar com Ivan a glória da noite. Em casa, havia passado os olhos pelo livro, uma imensidão de detalhes em nuances caipiras, é livro para agarrar e ler de uma vez só. Um presente de Ivan, que escreve do jeito com que essa gente da terra se expressa, a narrativa contada a boca miúda, no pé do fogão de lenha. Histórias de fantasmas, experiências sobrenaturais numa cidade que tinha as ruas de terra, iluminadas por lampiões de querosene, o que já era muito sinistro.
Coquetel com tudo servido à moda do interior, com capricho, bolinho de frango pequenininho, de dar gosto, cuscuz, paçoquinha, doces ABC, flores do campo, xitão e uma sanfona antiga compondo estilo na mesa. E daí os amigos, prefeito Luiz Gonzaga Vieira de Camargo e Maria José, Beth Roseiro, Lúcia, Décio, Carmelina, Eloisinha Reali, Ana Camargo, José Tarcísio, Manu, Paulo Borges e Eloísa, Gláucio e Lisa, Célia Marteletto, Ary Roberto, Rogério, Mingo da Amart, Soraya Manna e Deise Juliana, que fazendo as honras da casa, me apresentou a Henrique Autran Dourado, diretor do Conservatório e articulista do jornal “O Progresso de Tatuí”.
Em uma cidade como Tatuí, em que tudo ainda é pertinho, saímos, eu e Celinha para receber os amigos: o escritor Sílvio de Abreu e sua esposa Maria Célia e Fábio Bittencourt com sua esposa, a escritora Maria Luiza Azevedo Bittencourt, que jantavam no Restaurante Docas. Conversa boa, Maria Célia e Maria Luiza são sobrinhas de Bimbo Azevedo, maestro, compositor, luthier, musicista que será homenageado com sua imagem estatuada em bronze, imortalizada pelas mãos do escultor Cláudio Camargo.
Professora Leila Salum Menezes da Silva, dona Leila é tão minha querida professora que não me acostumo em chamá-la de doutora.
A casa sempre igual, os sofás de couro marrom dispostos um a frente do outro, a pequena mesa de apoio coberta com toalha de crochê. A cadeira de balanço. O barulho da rua 11 de agosto fica distante tal é o ânimo da conversa. Os livros arrumados na estante de parede inteira. As fotos da família em porta retratos contam histórias, guardam sorrisos. O vezo estilístico da escritora pontuando a conversa em humor e drama. Ela estende-se além dos reveses sofridos, ama a literatura, ostenta o que lhe faz bem, os detalhes aqui não são pequenos, comenta a beleza dos netos, o jeito de cada filho, ri fazendo brilhar seus olhos de menina. Sêo Gilton sempre por ali lhe dando atenção, um casal bonito.
Enquanto a escrita e a leitura são assuntos mortos neste país na casa de Leila falamos de livros. Folheio um belíssimo livro de arte, em primorosa edição com fotos e texto dos monumentos do Distrito Federal, presente do Ministro Celso de Mello que carinhosamente ela chama de Celsinho. E conta que quando Celsinho tinha de 10 para 11 anos e era seu aluno no Instituto de Educação Barão de Suruí ela, no meio de uma aula sobre adjetivos restritivos e explicativos pede um exemplo aos alunos de adjetivo explicativo e lembra, são aqueles que tem a qualidade essencial, que não acrescenta nada, por exemplo leite branco. Celsinho de pronto levanta a mão e diz: homem mortal. Ao contar este fato ela revela o orgulho de ter tido um aluno tão brilhante entre seus muitos queridos alunos.
Como está sendo fazer pós graduação de processo civil aos 76 anos de idade?
Eu me lembro que Sêo Borges dizia: “Catão, aprendeu grego aos 80 anos”.
Está sendo um aprimoramento do meu curso de graduação na FKB com o grande professor Soares Hungria. Adoro estudar, sou muito Jamul Salum, meu irmão também um estudioso.
Quando eu me aposentei eu fiquei meio vendida e meu filho Cassiano me entusiasmou a fazer faculdade de Direito. Um dia encontrei com Dona Zeneide que havia me proposto o vestibular para Direito. Estudamos juntas e passei em primeiro lugar entre mais de 1000 candidatos.
Como foi voltar aos estudos?
Minha turma era privilegiada, existia gente madura e profissionais com interesse em crescer.
O que é ser professora? É apenas um ofício ou é uma identidade?
Não é nem ofício, nem identidade é uma benção.
Tenho ex-alunos que me cumprimentam pelas ruas e isso é muito gratificante.
Certa vez, o juiz Dr. Marcelo, do juizado de menores, em uma audiência notou que todos me cumprimentaram, quando passavam pela porta. Ele comentou sobre esta minha popularidade, que eu credito aos anos em que lecionei língua portuguesa no Instituto de Educação Barão de Suruí e outras escolas. Fui professora não só do ministro José Celso de Mello, mas de 90% dos advogados do fórum. Dentre eles, o doutor Ivo Mendes, doutor Benê, e doutor Lincoln.
O interessante é que também fui professora de criminosos, corruptos, todos frequentavam a mesma sala de aula.
Se eu nascesse de novo, eu gostaria de ser professora. A palavra mestra é muito significativa. Jesus era um mestre.
Nasci em um berço que prezava o estudo. Minha mãe contratava professores de violino e francês para a formação de meus irmãos. Daí, me veio o gosto pelo estudo.
Se fosse possível escolher, ser um personagem de literatura. Qual você escolheria?
De cinema. Eu me identifico com a Ingrid Bergman, principalmente no filme Casablanca. Em literatura, seria Laura de Petrarca, ou Fermina Daza, a heroína do romance “O Amor nos Tempos de Cólera”, de Gabriel Garcia Marques.
Estudiosa da obra do escritor tatuiano Paulo Setúbal, o que você diz de seu estilo literário?
Paulo Setúbal é genial. Tanto nos romances históricos, como na poesia e no Confiteor, onde ele se desnuda ante a eternidade.
Como trazer Paulo Setúbal para os dias deste agora, sem ser maçante?
É difícil. Em época de internet é muito raro alguém descer os livros da estante para fazer pesquisa. A criançada está na mídia eletrônica e nem se importa mais.
Será avanço ou retrocesso? Será que a leitura toma muito tempo e a mídia em torno é mais imediata?
Vai muito da pessoa. O gosto pela leitura é quase que genético. Hoje, as pessoas querem resumo. Tudo pronto.
A saída?
Comprem livros, deem livros, comentem livros.
E o mundo de hoje?
Tem preço e não tem valor. As pessoas e as coisas são extremamente descartáveis. Contudo, eu me surpreendo com o mundo. Acho o mundo maravilhoso.
Não vamos jogar no lixo a tecnologia, sou do tempo dos rádios de pilha e elétrico. Gosto dos tempos de antanho, mas gostaria de ter nascido mais tarde, pois tem muito a desfrutar. Eu me emociono muito com as coisas.
Tatuí, ternura
Nós somos um povo acolhedor. Todos que aqui vem se sentem familiarizados e bem. Ainda há um pouco de esperança. A Praça da Matriz nos fins de semana é uma maravilha.
A nossa primeira dama é extraordinária, muito atuante. Nosso prefeito transformou a cidade.
O importante são as pessoas e não as coisas.
Para minha querida mestra,
Enquanto as pessoas se assustam e se acomodam com a passagem do tempo Leila Sallum floresce estudiosa, estabelecendo novos padrões de busca pelo conhecimento, novas marcas para o tempo acadêmico que sedimentam nosso respeito ao estudo agregando respeito e valor à língua portuguesa. Nesta Tatuí ternura, Leila ocupa um lugar imenso, minha mestra. Estar com ela tem a força de um acontecimento, um duo em que o cotidiano é tratado com decência, amizade e cultura.
Nas tardes, a passarada canta em revoada, acoberta-se entre o balanço das folhas nas árvores seculares da Praça da Matriz. O jardim é protagonista deste outono que mais parece verão. O ar tépido deixa a pele fresca. Noites sem agasalho. O futuro aventureiro encontra pausa entre um café com espuma e o pão de queijo quentinho. Em conforto na existência é possível este trabalho de enxergar, descobrir as raízes, buscar nas conversas o argumento para crescer a escrita. Aí esta a graça do interior, o passa-passa de pessoas pelo café, o descanso do olhar no verde frondoso de sombra e preguiça, o vislumbre de um tempo que chega buscando na calma a matéria prima das coisas feitas com vagar e concentração. Aqui o alto-falante dos enervantes carros, a corrida do fim do dia passa rente e raspa arranhando humores, mas não nos toma completamente. O comércio baixa as portas de aço. Ainda existe um tempo para jogar conversa fora, para pensar a vida limpa. Olhando a praça, eu olho o mundo, tento entender tudo à distância, construindo nas superposições do tempo a imagem em camadas de um código que aprendi e que me vale rumo à fora, como nos romances de Agatha Christie, na lógica de miss Marple de que, em todos os lugares, os tipos se repetem. Fora de hora folheio o jornal do dia. As histórias mínimas que correm entre as mesas redondas do café assumem variações como se fosse música. Sempre é dia de estreia, sempre tem novidades. Pequeno grupo de músicos agenda ensaio. Palavras cruzadas são disputadas e recebem assinatura. O café é canção de todo santo dia. Homens com a gravata frouxa depois do expediente. Tudo se sabe, a vida dos vivos e dos mortos. Alguns fazem negócios. O casal namora, e na espera trocam beijos, muitos beijos. Minha travessia por aqui é solitária. Às vezes, encontro pessoas que não vejo há tempos. Tem dias que procuro assunto, tem dias que busco sossego para escrever olhando a rua. Notas musicais esparsas enchem o ambiente, é um fato. Um músico afina seu instrumento. A larga entrada do café aberta ao entardecer. O verde é renda que balança no alto das copas. A cidade se desdobra em várias, carrega muitos sentidos, penso nas frases que espero que venham. Distraída, observo um homem apressado, alto, de presença forte, que atravessa a rua e cruza a praça. O cachorro vadio e esperto. Em par os guardas municipais. Jovens iguais, de boné, jeans e camiseta larga. Observo o Fran com a conversa macia na ponta da língua, assim como a sua escrita que remexe os “causos” da cidade e os estica em crônicas. Posso, se quiser, reduzir a cidade em fragmentos belos e precisos. Revejo histórias de um passado distante. Os filmes épicos, os filmes em série, os romances açucarados, os gibis da revistaria São José. Uma pequena cidade com sabor de sorvete de coco e balas puxa-puxa de café. As noites silenciosas, o trote dos cavalos nas ruas de paralelepípedo e terra. O clima misterioso que se desfez com o tempo. Infância em preto e branco, agora sépia. O italiano de tipo sanguíneo veste a camiseta branca sob a camisa de mangas longas, listrada de azul e branco. Tantos anos de Brasil, o sotaque ainda é carregado. Mantém o costume de reunir-se aos amigos na praça e no café, como na velha Itália. Fala dos vinhos fermentados com o próprio açúcar da uva, o vinho tinto seco, estala a língua na boca. Fico por aqui sem querer aborrecer ninguém, leio o jornal do dia. Escrevo. Antes aqui as ruas eram de poeira; depois, o calçamento com lajotas rejuntadas com piche preto, fumegante, de cheiro forte. Brincava de estourar as bolhas com os pés pequenos, calçados com botas ortopédicas. Escrevo para rever com prazer este trajeto de afeto. Agora, asfalto. O verde é renda que balança no alto das copas. A cidade se desdobra em muitas. A simplicidade tosca das feiras dos bairros, as bancas do Mercado Municipal, o cheiro de fumo de corda, as frituras dos bolinhos de frango feitos de modo caipira, com a farinha de milho escaldada. Tatuí carrega em si muitos sentidos, para o bem ou para o mal, o povo é exagerado, é dado a excessos. Povo orgulhoso da terra; por aqui, as notícias correm, uns falam dos outros. É assim que o interior se expressa. As pessoas se notam, se pertencem e seguem em destino comum com trajetos entrelaçados. Fecho os olhos e ouço um burburinho de erres arrastados, o sotaque que vem de longe, das origens rurais, do caminho das tropas que, muito mais que antigamente, passavam por estas paragens. Deste jeito, escrevendo, penso da minha responsabilidade na formação de um público mais reflexivo. Como levar a alma de nossa história às pessoas falando de nossa gente de um jeito gostoso de ler? Perdida nesses pensamentos, ao virar a esquina da rua 11 de Agosto com a rua Cônego Demétrio, encontro-me com o artista Celso Módena, tensão contínua, explosiva em criação. Interessado pelo fazer na prolífica bisbilhotice de transformar o ócio em ofício. Construiu sua vida assim, sem disfarçar suas verdadeiras intenções. Deixou de ser bancário para ser artista. Começou pela fotografia, autodidata. Cobriu festas, casamentos, retratou um tempo da cidade. Fervorosamente crente em sua arte, abrigou anseios de amplidão, aventurou-se pela música, e assim foi indo, desdobrando-se, decidindo seu destino. Só ele ouve o que não mais ouvimos. Só ele sabe do cheiro de morte dos animais assados, comidos nos churrascos. Conversando, dá-lhe um branco, estes espaços vazios, as pausas silenciosas que socorrem os mais velhos quando querem expressar tanta memória guardada. Os olhos vibram, azuis e jovens, a curiosidade o alimenta. Tem vocação de menino, sempre descobrindo, aprendendo, se assustando com o que já foi, o garoto cruel que, com estilingue e porrete, matava passarinhos. Agora se recusa a pactuar com a matança agressiva dos animais. Até goiaba come com cuidado para não dividir ao meio os bichinhos que ali fazem moradas. O semblante se entristece quando fala da sina do artista, sempre com pouco dinheiro, ofício sempre sem paga. Quanto custa a sua arte? Quanto custa a entrega total, o êxtase quando o ouvimos tocar? Celso só tem um ouvido bom, um incrível ouvido estéreo. Bruxo de sua flauta encantada. E só tem um olho bom, e é com ele e sua câmera que vigia as abelhas, as formigas, as jabuticabas espalhadas pelo chão do seu quintal. A vida em fá maior, rica em maravilhas. Seu mundo de reinações, sua obra fragmentada em excessos de distrações. O sorriso se abre e conta sua mais recente glória: domínio, ainda que não totalmente, como ele faz questão de dizer, do computador. A internet o assusta pelas infinitas viagens, tem medo de se perder pelo mundo virtual agora que o sono quase que não vem, agora que a vida lhe abençoa para fazer o que quiser, desde que não se machuque, desde que não perca a paz. Feliz achado, saí emocionada com este encontro casual. Pessoas de impulso artístico me tocam profundamente. Estou viva, vivíssima, com tudo a ser feito, apaziguada pela tangência que a figura de Celso acorda em mim. Com toda a sua inconstância, com todo o descaso com que é tratada a arte e os artistas neste país, Celso permanece impávido, desperto. Ele é feliz e não inveja nem os reis da terra.
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Tatuí Cidade Ternura
Decifras a partitura da obra do compositor há gramofones roucos Marimbas de cristal pianos loucos e banda festiva na praça
Nada tarda quando o tempo pára.
A conversa do Café é Canção. São tons de muitas idéias palavras de acento forte o r com som dobrado
Na Matriz toca o sino caprichoso Tem festa de Jorge e de Santo cães vagabundos e cães na coleira
Abrem-se tendas feito palácios das bordadeiras
Voa a folha da seringueira Voa a imagem distorcida e torta da cidade que foi da que há da que virá
Praça de ouro e prata Praça do meu destino Daqui parti por ares, mares e terras fazendo roda, ciranda como na minha infância quando o meu mundo sabido era este jardim encantado e as suas ruas de terra
Praça minha em teu centro fiz-me em asas, criei letras, filhos, amigos palavras ditas benditas Palavras ditas de novo Raiz é o que sai da terra a alma viva do povo.
Cristina Siqueira é escritora, poetisa, jornalista,decoradora.É autora do Projeto Livro de Rua que transforma vias públicas em vias de leitura. Promove oficinas de literatura.Obras editadas –Papel ,A carne da noz,Por trás dos muros,Livro Prisma,CD-Se houvesse amor a vida seria carícia.Colabora com artigos para jornais e revistas no Brasil e exterior.Em decoração de ambientes utiliza técnicas de Feng Shui- Terapeuta Holistica atua como facilitadora de auto conhecimento.Consultorias: Feng Shui,Taro Mitológico Grego,Terapia floral de Bach- Cursos e estudo-na Europa, Estados Unidos e Brasil. - Viagens de auto conhecimento:SedonaUSA,Abadiânia, Pirinópolis ,Goias,Inspiração do Projeto Orion durante a energização nos vórtices de Sedona.,Inspiração do cd “ Se houvesse amor, a vida seria carícia” – Praia dos Nativos – Trancoso - BA